Todos os artigos
Liderança5 min de leitura

Pressão invisível, mapa visível

Comece por aqui: o que é este espaço, para quem escrevo e o que você vai encontrar.

Por Fernando Lourenço Maeda
Mãos em notebook com diagrama de fluxo desenhado na tela, escritório com vista noturna da cidade

Você fecha o notebook. O negócio e o trabalho continuam abertos na sua cabeça.

Se essa frase descreve as suas noites e finais de semana, este espaço foi escrito para você.

Meu nome é Fernando Lourenço Maeda. Sou psicólogo clínico há mais de vinte anos (CRP 06/77137), mestre em Psicologia Clínica e especialista em ACT, uma abordagem baseada em evidências, com aplicação em ansiedade, estresse e contextos de esgotamento no trabalho, e em ciência comportamental. Também fundei e geri clínicas, coordenei programas de saúde mental em grandes operadoras, contratei, demiti, fechei ciclos. Conheço os dois lados da mesa: o de quem trata e o de quem responde pelos resultados no fim do mês.

É nessa interseção que eu trabalho. E é dela que nasce esta newsletter.

Para quem escrevo

Escrevo para quem sustenta um negócio ou uma operação sob pressão crônica. Isso inclui perfis que o mercado costuma tratar como um só.

O empreendedor de capital próprio, o dono ou o sócio que responde pelo negócio: caixa, cliente-chave, reputação e, com frequência, o patrimônio da família exposto na operação.

O founder ou cofundador com investimento, que precisa olhar para a próxima rodada, board, meta de tração e a obrigação de parecer confiante mesmo sem ter certeza de nada.

E, por fim, quem lidera dentro de uma estrutura: diretoria, gerência, C-level. O negócio não está no seu CPF, mas a consequência passa por você: a meta, o time, o clima, o resultado, a própria trajetória. A pressão vem de cima, de baixo e dos lados, e mostrar dúvida parece custo político.

Os contextos são diferentes. O núcleo é o mesmo. O negócio, ou o papel, ocupa identidade, não só agenda. A pressão não encerra quando o expediente encerra. E admitir e gerenciar limites, ou procurar um profissional, costuma ficar para depois, porque parece admitir algo que o papel não permite admitir.

O que eu defendo

Uma ideia organiza tudo o que publico aqui: a pressão por desempenho e resultado é uma via de mão dupla.

Ela não nasce só dentro de você, como sugerem algumas narrativas do mindset. Também não nasce só no sistema (que é sim desafiador), como sugere o determinismo de quem desistiu.

→ Ela nasce na relação entre o contexto que exige e o repertório com que você aprendeu a responder.

Essa leitura troca as duas perguntas de sempre. "O que há de errado comigo?" vira "o que esse ambiente exige, e como eu aprendi a responder a isso?". E "não há nada a fazer" vira "onde exatamente está a minha margem?".

Para quem carrega um negócio ou um cargo de responsabilidade, há um detalhe que muda o jogo. Você não é só o indivíduo dentro do sistema; você desenha o sistema ou parte dele. Define metas, articula processos e rotinas, contrata, dá o tom, decide o que é recompensado.

Em alguns casos, especialmente para quem empreende ou lidera, trabalhar o próprio repertório e redesenhar parte do ambiente começam a virar o mesmo movimento.

Como eu trabalho

Antes da conduta, o mapa.

Entender o sintoma não basta. "Estou ansioso", "estou esgotado", "não desligo nunca" são pontos de partida legítimos, mas ainda não dizem o que sustenta e mantém esse padrão.

O mesmo cansaço pode ter três mecanismos diferentes, e cada mecanismo pede uma conduta diferente. Por isso boa parte das "dicas de produtividade" que você já leu não funcionou: elas miram o sintoma e erram o mecanismo.

O meu objetivo aqui é desenhar o mecanismo comportamental e contextual. Literalmente, em muitos casos: transformar o ciclo invisível que mantém a pressão num fluxo que dá para ver, seta por seta:

→ O alívio temporário que na verdade reforça o excesso de trabalho.

→ A centralização de responsabilidades que treina a empresa a depender de você.

→ A entrega que parece dedicação no relatório e funciona como fuga por dentro.

Porque quando o padrão fica visível, a decisão fica menos reativa. Isso não elimina a pressão, não faz desaparecer, mas abre margem dentro dela para pensar de forma diferente.

O que este espaço não é

Não é mentoria de performance. Não prometo resultado, não vendo fórmula, não uso argumento de escassez nem fabrico urgência.

Também não é a psicologia genérica que recomenda "colocar limites" sem entender o que o negócio significa na sua vida.

Frases assim parecem simples para quem nunca teve a folha de pagamento na própria conta ou a responsabilidade de gerar resultado com prazo.

E não é uma coleção de dicas. Minha métrica é outra: cada texto precisa fazer você enxergar melhor um padrão antes de tentar agir sobre ele.

O que esperar daqui

Um ensaio por edição, sobre os mecanismos envolvidos no contexto de pressão e alta exigência de quem decide:

→ burnout que começa antes do colapso, → a "fusão" entre você e a empresa/cargo, → a decisão que acalma hoje mas pode travar amanhã, → o que é desempenho sustentável de verdade, que respeita sua saúde.

Pressão invisível, mapa visível. É este o trabalho.

Se fizer sentido para o momento em que você está, assine e fique por perto. A primeira edição já está no ar: burnout não começa quando a pessoa quebra.

Referências de base

  • Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change (2nd ed.). Guilford Press.
  • Bond, F. W., Hayes, S. C., & Barnes-Holmes, D. (2006). Psychological flexibility, ACT, and organizational behavior. Journal of Organizational Behavior Management, 26(1–2), 25–54. https://doi.org/10.1300/J075v26n01_02
  • Sorensen, D. (2024). ACT for Burnout: Recharge, Reconnect, and Transform Burnout with Acceptance and Commitment Therapy. Jessica Kingsley Publishers.
  • World Health Organization. (ICD-11). QD85 Burn-out. https://icd.who.int/browse/2024-01/mms/en#129180281
#founders#liderança#saúde mental no trabalho#ACT